segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A guerra custa dinheiro

Há coisas que são, simplesmente, incompreensíveis.
Entre 1990 e 2005, as guerras custaram a África 212,4 mil milhões de euros, valor idêntico ao da ajuda internacional destinada ao continente. "O valor gasto com as guerras poderia resolver a crise da sida, prevenir a tuberculose e a malária, fornecer água potável, saneamento e educação" - porta-voz da Intermón Oxfam, Consuelo López-Zuriaga.
Faz pensar, não faz?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Descobertas

"Graças a ela enfrentei pela primeira vez o meu ser natural enquanto decorriam os meus noventa anos. Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reacção contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio. Descobri, por fim, que o amor não é um estado de alma mas um signo do Zodíaco."

in Memória das minhas putas tristes
Gabriel Garcia Márquez

Já agora, a dita crónica

Fica aqui um bocadinho da tal crónica, pa animar as hostes.
(não sei bem se andar a copiar crónicas dos outros é legal, mas enfim lol)

"(...) Somos avaliados no momento em que nascemos e, a partir daí, os relatórios da nossa performance nunca mais páram. Primeiro são avaliações com alguma inocência - "Tem 13 meses e ainda não anda?" ou "Só aprendeu a escrever aos 7 anos?" - mas tudo acaba, inexoravelmente, com a avaliação no ginásio e a maquina que mede o "stress cardíaco" a dizer que há um "serious deviation detected" (ao que o treinador acrescenta, lacónico, que "o programa deve estar avariado").
No meio disto, entre o nascimento e a morte, somos avaliados pelos filhos (que oscilam entre a poesia e o insulto brutal), pelos maridos (salto esta parte), pelos amigos, os colegas e, no fim, pelos nossos chefes.
Na Função Pública portuguesa, garantiu-me um especialista, 97 por cento dos funcionários foram avaliados durante anos, e sistematicamente, com um "Bom" ou "Muito Bom". E, como toda a gente sabe, ao fim de dois ou três anos eram automaticamente promovidos. Esta semana estamos todos a ser avaliados no jornal e todos queremos ser, por um dia, funcionários públicos do tempo pré-Sócrates."
Bárbara Reis, in Ípsilon

Avaliações

Hoje li uma crónica que me fez cerrar os punhos. Respirei fundo e continuei a folhear as páginas do jornal, mas às tantas foi mais forte do que eu e voltei atrás. A crónica é gira e divertida, um tanto irónica, e fala das avaliações de que somos alvo ao longo da vida.
Não pude deixar de ficar a pensar nisso... As notas da escola que tirei mais para os pais do que para mim, a média do secundário, a média da faculdade. O nosso valor somado, dividido e multiplicado, publicado em tabelas sem espaço para poesia. Durante muito tempo somos números, não somos exactamente o que aprendemos. É isso que os pais exibem orgulhosos, valemos números e nomes de cursos pomposos.
Agora que saí para o mundo real, a avaliação é diferente, é mais precisa e contundente, mas ao mesmo tempo mais ambígua. Já não serve ser bom, é preciso ser o melhor. Porque só o melhor consegue os lugares bons, os que valem a pena. Só que agora há várias escalas, há vários conceitos de bom, há várias lupas para o mesmo papel. Mesmo assim, acreditamos cá dentro que fomos feitos para vencer. Acreditamos porque não vemos o que fazemos como um simples ganha-pão. Acreditamos que devemos procurar a excelência.
Mas acreditar só não chega. É preciso senti-lo em todos os pontinhos do corpo. Porque haverá sempre quem nos diga que sonhamos muito alto, que não devemos arriscar, que a vida tem que se resumir a voos baixos mas seguros. Haverá sempre quem não veja mal naquilo que nos choca, haverá sempre quem ache que "assim já estás muito bem". E essas pessoas podem até ser aquelas de quem mais precisamos de ouvir palavras de incentivo, podem até ser aquelas que esperávamos que nos exigissem exigência (a redudância era necessária).
É por isso que a vontade tem que ser mais forte., é por isso que não nos podemos perder no mais ou menos. Porque agora já é a nossa vida, não são boletins da escola para fazer os pais orgulhosos. No fim, a nota que recebemos pelo que fizémos, será a nota correspondente ao nosso lugar no mundo, ao nosso papel. Será nota da nossa felicidade.

domingo, 7 de outubro de 2007

Jornalismos

Às vezes ponho-me a pensar e enrolo as ideias umas nas outras até ao infinito. Todos temos um tema preferido, um assunto sobre o qual gostamos de ler e que nos faz pensar. As ideias saltam e encaixam umas nas outras como uma corrente de pensamentos que que querem mudar o mundo. Eu quero mudar o mundo. Quem não quer? A diferença é que cada um quer fazê-lo com as suas ferramentas. Através da política, da justiça, da economia, da educação, da ciência, do apoio ao ambiente, da criatividade, da arte. Eu quero mudar o mundo a contar histórias. E por isso penso na forma como se contam as histórias, em quem as conta e em quem as ouve. Cada vez penso mais. Às vezes pensar nisso transforma-se num mar de angústias, num grito abafado que diz "Oiçam-me! Temos que mudar isto tudo!".
Agora que vejo de fora, aprendi muita coisa durante o tempo que estive na Renascença. E reforcei e fundamentei algumas opiniões. O evoluir do jornalismo é inevitável; as novas tecnologias chegaram para ficar, e já é fácil encontrar notícias sem esforço com apenas alguns cliques a custo zero. É preciso REPORTAGENS. O mais nobre dos géneros jornalisticos. O mais apaixonante. O trabalho que não é de consumo rápido e implica investimento.
O último número da revista do Clube dos Jornalistas trata dos três Prémios Gazeta 2006. Um deles ganho pelo meu professor Jacinto Godinho, que escreve na revista um texto de uma sabedoria surpreendente (quem o ouve nas aulas acha-lo-á mais sem sal do que é na realidade). Outro dos prémios é entregue a um jovem jornalista chamado João Pacheco, que apesar de ter feito duas reportagens de investigação que lhe valeram o prémio de imprensa regional, encontra-se numa situação que caracteriza como "precária" (ou seja, recibos verdes). Deixo aqui dois excertos, um do texto escrito pelo Jacinto Godinho, a propósito do prémio, e outro da entrevista que a revista fez ao João Pacheco:
"(...) Os canais especializados em informação emitindo notícias um dia inteiro acabam por ser mais repetitivos e redundantes, amontoados de informação, que verdadeiramente diferenciadores ou inovadores na qualidade do jornalismo produzido. Isto para além de transformarem os válidos valores de rapidez, de informação em cima da hora, em precipitação, em angústia e ansiedades doentias, sacrificando aos poucos a ponderação, o rigor, discernimento do que é notícia válida.
Os ecrãs nacionais estão a transformar-se num vertiginoso e casuístico arremesso de notícias, em catadupa, na direcção do espectador. As informações válidas perdem-se no meio de exercícios mistos de reportagem, especulação e comentário. O Caso Maddie, em que desde maio as notícias factuais se podiam contar pelos dedos das mãos, transformou os jornalistas nos directos televisivos em repórteres transgénicos cruzando na mesma frase, dados de reportagem, com laivos de comentário especulativo e investidas na pele de especialistas forenses.
Não quero com isto desprezar a informação diária, pelo contrário, ela é o fundamento de todo o jornalismo. A forma como se faz é vital para a profissão. As suas virtudes dão saúde, os seus vícios tornam-se cancros. Um bom jornalista não é aquele que exige tempo para realizar as peças mas aquele que pensa depressa e bem. Depressa e bem só se alcançam com experiência e vivenciando profundamente, em toda a amplitude dos géneros, o fazer jornalístico. A informação diária não impõe só uma ditadura de meios mas também uma ditadura de valores e mentalidades. (...)"
Jacinto Godinho
"JJ - Uma das críticas que diriges à qualidade do jornalismo que se pratica hoje é a banalização da "reportagem rápida" e a permeabilidade aos interesses de corporações...
JP - Não sei se há uma perda de qualidade. O que sei é que agora, como jornalistas, temos desafios novos, que não estão a ter as melhores respostas. Não é pelo "sexy" que nós, jornalistas da imprensa paga, vamos conseguir competir com a televisão ou com os jornais gratuitos ou a Internet. Nem a informação amadora da Internet nem ou jornais gratuitos, pelo menos até agora, nem sequer a televisão, com o seu tempo de consumo muito rápido, conseguem substituir a reportagem. Uma das respostas para os novos desafios seria fazer mais reportagens, e mais reportagens com qualidade e com temas fora da agenda."
João Pacheco

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Adeus RR

Acabei de escrever o meu "mail da despedida", como é praxe aqui na rádio quando alguém se vai embora.
Confesso que sinto uma pequena angústia, uma pequena nostalgia, uma pequena tristeza. Pela relação de amor/ódio que desenvolvi com esta equipa, esta sala, estes telefones e computadores. Foram dias mistos de momentos de alegria e entusiasmo, com irritação e frutração. Agora que acabou sei que terminou uma fase importante: o meu primeiro "emprego". Sem ordenado ou funções definidas, sem estatuto de igualdade para com os outros colegas e sem reconhecimento. Mas foi o mais perto que tive de execer esta profissão de paixões e ódios que é o jornalismo. Por três meses estive numa redacção que ferve de agitação todos os dias. E eu aqui no meio, perdida no agitar das ondas.
O futuro aparenta-se nublado e incerto. Um gigante ponto de interrogação.
Fartei-me de dizer que não gostava disto, que queria ir embora, mas neste momento em que arrumo as coisas na mala e saio pela última vez pela porta do número 14 da rua Ivens, tenho medo de estar a fechar uma porta que não era assim tão feia. Vá lá, admito, estou com saudades.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

E os ursos polares?


«A ilha de Melville, no Árctico canadiano, é a maior ilha não habitada do mundo e é também um dos sítios mais frios das Américas. A temperatura não costuma ir acima dos cinco graus. Mas, neste Verão, quando o cientista canadiano Scott Lamoureux lá acampou, em Julho, até dava para apanhar banhos de sol de biquini, na maior das descontracções: "Houve dias em que as temperaturas foram até 22 graus", contou.

"Muitas vezes, registámos temperaturas entre 10 e 15 graus", contou Lamoureux, da Universidade da Rainha (Ontário), citado pelo jornal britânico The Independent. O calor era tão intenso que, no solo gelado (permafrost), o gelo se derreteu até um metro de profundidade.Os cientistas que estudam os gelos estão verdadeiramente alarmados com a intensidade do degelo no Árctico este Verão: só se esperava que ficasse assim em 2030, conta o jornal Edmonton Sun. "O gelo está a derreter tão rapidamente que não se acumula nem endurece. Daqui a dez anos, podemos bem olhar para 2007 e perceber que este foi o ano em que passámos o ponto de não-retorno", disse a esse jornal canadiano John Falkingham, do Serviço de Gelos do Canadá.

O ponto de não-retorno é a expressão usada pelos climatólogos para se referirem ao momento em que a formação de gelo durante o Inverno do Árctico deixar de ser suficiente para compensar o que se derrete durante o Verão. E este ano o gelo derreteu mesmo em sítios onde nunca se derrete. (...) »

in Público

P.S. Vamos todos morrer mas antes morrem os ursos polares!